Cérebro também precisa aquecer

Pense na clássica rotina de um corredor antes de uma prova ou treino intenso: alongamentos dinâmicos, pequenos trotes, saltos e exercícios de mobilidade. Tudo isso serve para elevar a temperatura…

Tempo de leitura: 6 min.

Pense na clássica rotina de um corredor antes de uma prova ou treino intenso: alongamentos dinâmicos, pequenos trotes, saltos e exercícios de mobilidade. Tudo isso serve para elevar a temperatura corporal e preparar os músculos para o impacto. Mas e se a chave para quebrar o seu recorde pessoal não for apenas aquecer as pernas, mas também a sua atenção? Uma ideia contraintuitiva está ganhando força na ciência do esporte: o desempenho físico atinge o seu ápice quando o cérebro “sua” um pouco antes de o corpo começar a correr de verdade.

Essa nova fronteira do treinamento foi testada em um estudo revelador publicado em abril de 2026. Pesquisadores acompanharam 25 corredores amadores experientes em um desafio direto: correr uma milha (cerca de 1,6 km) em uma pista de atletismo o mais rápido possível. Os voluntários foram divididos em diferentes sessões de aquecimento. Em algumas, fizeram apenas a preparação física padrão. Em outras, o aquecimento físico foi intercalado com pequenos blocos de três minutos de tarefas cognitivas em um aplicativo de celular  jogos mentais curtos que exigiam memória, foco e tomada rápida de decisão. O resultado foi impressionante: ao adicionar o esforço mental, os atletas melhoraram seus tempos de corrida entre 8 e 11 segundos (um ganho de 2% a 3%), independentemente de o desafio cognitivo ser leve ou difícil.

A explicação para essa melhora, que parece quase mágica, mora na psicobiologia. Os dados mostraram que os corredores que aqueceram o cérebro relataram um nível muito maior de “prontidão” para a prova e, surpreendentemente, sentiram menos esforço físico enquanto corriam, apresentando até mesmo uma frequência cardíaca média mais baixa. A hipótese dos cientistas é que os jogos mentais ativam as funções executivas no córtex pré-frontal, induzindo o sistema nervoso a um estado de alerta e eficiência conhecido como “estado de fluxo”. Em outras palavras, a ativação cerebral prévia otimiza a forma como o corpo regula o esforço e a fadiga, fazendo com que a corrida pareça mentalmente mais fácil e mecanicamente mais fluida.

Você não precisa de um laboratório ou de aplicativos complexos para testar essa estratégia na sua próxima ida às pistas. A essência do estudo é estimular o cérebro a sair do “piloto automático” antes da largada. Experimente intercalar seus trotes de aquecimento com exercícios que exijam coordenação motora fina, atenção e tempo de reação. Fazer embaixadinhas, tentar malabares simples com bolinhas de tênis, ou até mesmo pedir para um parceiro de treino ditar comandos aleatórios de mudança rápida de direção são formas excelentes de “ligar” os neurônios. Até mesmo um jogo rápido de palavras cruzadas ou sudoku no celular, entre as séries de alongamento, pode servir como um gatilho de ativação mental.

Contudo, a ciência exige cautela antes de transformarmos uma descoberta em regra absoluta. Os próprios autores do estudo ressaltam que a pesquisa foi realizada com uma amostra pequena  de apenas 25 indivíduos  e o efeito necessita de ampla replicação em diferentes modalidades e distâncias para ser totalmente validado. Ainda há muito a descobrir sobre qual é a “dose” exata de esforço mental que beneficia o corpo sem causar fadiga psicológica. De toda forma, o recado que fica é transformador para qualquer atleta: o corpo humano não é apenas uma máquina mecânica. Se você quer que suas pernas voem, seu cérebro precisa estar na linha de frente, devidamente aquecido e pronto para a largada.

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